Teresa Viana exibe suas cores transbordantes em São Paulo

08/2017

Teresa Viana exibe suas cores transbordantes em São Paulo
Cristina R. Duran, 20/11/2001

Texto publicado no jornal Valor Econômico, na inauguração da exposição individual na Galeria Baró Senna, SP.

As fortes e vibrantes cores da obra de Teresa Viana explodem para fora da tela. Tal afirmação não é no sentido figurado. A técnica da artista é de tal forma apurada que suas pinceladas parecem escorregar para formar um relevo entrelaçado sobre o suporte em que ela trabalha. É mais um desdobramento na trajetória artística, iniciada em 1989, dessa carioca residente em São Paulo que terá suas telas mais recentes expostas na Baró Senna a partir de Quinta-feira.
Para dar uma referência à forma da obra de Teresa Viana, pode-se falar sem exagero, em polifonia de cores. A palavra aplica-se à música ( define a simultaneidade de várias melodias que se desenvolvem independentemente, mas dentro da mesma tonalidade), mas também serve para definir o desenvolvimento do raciocínio plástico da pintora em seus quadros – que ela faz, invariavelmente, ouvindo jazz em seu ateliê na Vila Madalena.
“No jazz cada nota é uma nota, não há como fazer figuração. Para mim, a cor funciona da mesma forma; é, no máximo, uma entidade musical”, diz ela ao Valor. “Começo a pintar e uma cor vai me pedindo outra, que, por sua vez, me pede uma linha e a tudo isso se junta o movimento provocado pelo meu corpo à medida que vou pincelando.”
As espessas pinceladas de Teresa Viana são fartas. Depositadas sobre a tela em camadas que se entrelaçam e fazem caminhos parecem querer escorregar pela tela e transbordar do suporte, mas lhe dão sentido de profundidade e harmonia.
Ela produz sua tinta misturando encáustica ( cera com terebintina) com tinta à óleo. “Construo a cor que me interessa para dar as camadas e desdobrar um pensamento plástico em um universo de cores”, explica. “Minha ação sobre a tela traz um olhar superdimensionado na busca e no sentido das cores.”
A série que ela expõe agora é resultado de uma bolsa de pesquisa da Pollock-Krasner Foudation que ela disputou com pintores de todo o mundo. Aprovado seu projeto recebeu verba para a aquisição de material e despesas pessoais. Assim, a artista abandonou temporariamente as aulas que costuma dar no Museu Brasileiro da Escultura (Mube) para se dedicar exclusivamente à pintura. Depois de passar duas semanas em Nova York visitando museus e revisitando  o trabalho dos artistas modernos e contemporâneos, ale se trancou no ateliê para desenvolver o trabalho. Entre os contemporâneos e os modernos, Teresa fica com os últimos – como Van Gogh, Cézanne, Gaugin e o próprio Pollock.
“Para os modernos, tudo era pesquisa, era o que o olho enxerga”, diz ela. “Para mim, os contemporâneos são muito intermediados pela mídia, embora esse seja um fenômeno natural da época”, complementa. “Minha intenção é resgatar a qualidade do olhar buscando novos sentidos para a pintura”, conclui a artista.
Em uma  primeira fase, a obra de Teresa Viana era construída com cores em tons pastel – em alguns desenhos, até, quem imperava era o preto. Há dez anos, no entanto, depois de passar alguns meses na Europa visitando museus, as cores explodiram na palheta da artista que fez sua primeira individual no Centro Cultura São Paulo (CCSP), em 1994, e a última em 1998, no Paço das Artes, em São Paulo. Um ano mais tarde, ela participou da exposição anual Panorama do Museu de Arte Moderna (MAM), em que costuma ser exibida a mais nova produção dos artistas brasileiros.
Tadeu Chiarelli, crítico e professor de história da arte e ex-curador daquele museu, dedica um capítulo inteiro à obra de Teresa Viana em seu livro “Arte Internacional Brasileira”. Para ele, a pintura da artista situa-se em uma terceira via da arte moderna – entre a dominada pelas obras que se abrem à contemplação e ao envolvimento com o espectador e outra que nega qualquer relação com esse mesmo espectador e propõe um confronto direto com a sua materialidade.
“Logo ao primeiro olhar, sua pintura apresenta um incômodo: como conciliar a profusão de cores e tons tão opulentos – sedutores, belos, sensuais – com aquela materialidade tão bruta, áspera, desconfortável?”, questiona Chiarelli, para quem a obra de Teresa remete tanto a Monet quanto a uma pintura “brutalista”. Ele escreve: “suas obras parecem caminhar por uma corda bamba, estabelecendo uma concomitância precária entre aquelas duas tendências tão excludentes.”
Quem conhece a obra da artista desde o início verá claramente uma evolução e coerência no desenvolvimento da seu trabalho. As mesmas cores fortes repetem-se. Agora, no entanto, criando um jogo de novos caminhos, relevos e conjuntos cromáticos. “Há muito a ser construído na pintura entendida como linguagem”, diz ela. Bom sinal de que, logo, logo, aí vem mais.